– “Só um minutinho que eu vou descer até aí pra falar com você”.
Neste momento já percebi que ela não estaria. Santo Deus! O que será que eu fiz para merecer isto? Já é a terceira ou quarta vez seguida que um entrevistado esquece de mim. Acho que vou ter de adotar a tática de mandar-lhes uma mensagem antes do encontro: “Olha, não se esqueça, você marcou comigo hoje às 14:30h”.
Já pensou se fosse eu quem não cumprisse com o combinado? A propósito, acho que não deva ter jornalista que deixe de comparecer a uma entrevista, pois ficamos tão revoltados quando se esquecem de nós... Será que gente famosa ou gente comum mesmo – as fontes – sabem que jornalista cumpre horários, tem compromissos e dead line? Eu por exemplo, trabalho em um jornal mensal, mas não menos conturbado – ainda mais no quesito organização (mas isso é assunto para outro texto).
De qualquer forma, aqui estou eu sentada novamente. Não mais na calçada, mas em uma poltrona agradável, rodeada de peças de arte... só para se ter uma idéia, estou na sala de estar, de onde avisto: 18 quadros – sim, 18. Sem contar a vidraça da porta que é uma pintura de uma índia com peixes no lugar dos seios. Entre santos, cruzes e Espíritos Santos eu vejo dez, exatamente dez. Cavalos são dois, sendo que um possui três cabeças. Vasos de flores são 11. Estantes somam quatro – uma mais linda e rústica que a outra. Tapetes são três. Almofadas 15. Aqueles pratos de parede? Oito. Arco um. Flecha uma. Baú um. Conchas quatro. Porta-retratos cinco. Louças? Mil.
Ah... e tem mais, muito mais. Levaria horas para descrever tudo que vejo. Casa linda, cheia de detalhes, flores e cores. Como a que um dia quero pra mim. Mas acho que ao invés de tantos quadros, vou espalhar jornais pelas paredes, que tal?
Está vendo só Dona Yara Tupinambá, isso que dá marcar com jornalista e não comparecer. Ele sempre dá um jeitinho de encontrar um foco para a notícia. Imagine só a manchete:
- “Artista plástica reúne mais de 80 itens em sua sala de estar”.
... continua na próxima publicação.
.:: Porque escrever é uma arte ::.
Mara Bianchetti
É assim, agora me vejo aqui, sentada em uma calçada, à espera de uma fonte. Casas sofisticadas, arranha-céus, seguranças, pedreiros e alarmes é tudo o que vejo ao meu redor. Vez ou outra um carro, uma combi ou até um ônibus. Pela primeira vez, vim à Villa Paris.
Do alto do morro avisto casebres e puxadinhos, logo abaixo a barragem Santa Lúcia. São os extremos separados pela água. São diferentes realidades que gritam ao nosso olhar. A rua até que é movimentada: ora um carro chique, ora um motorista mal encarado; ora o silêncio; ora o mundo a desabar. Que medo o desconhecido nos traz!
A entrevistada da vez é a Senhora Yara Tupinambá. Na última reunião de pauta sugeri seu nome para o Vozes de Minas e pedi para eu mesma fazer a matéria. Quanto arrependimento! Além de ter sido um custo cruzar meus horários com os dela, agora me vejo aqui, meia hora adiantada, sentada na calçada, torcendo para que logo dê 14:30h.
E o custo que foi para chegar? Nem o fato de vir de carro me facilitou. Perdemos o caminho, passamos duas vezes pelos mesmo lugares, subimos morros estranhos, pedimos informação e encontramos, enfim, uma casa típica de uma artista plástica: muito ornamentada, cheia de flores e grandes objetos decorativos. “É aqui!” – exclamei.
Eis que chega minha vez: 14:20h está de bom tamanho. Também não vou chegar em cima do horário. Preciso mostrar que me programei. Agora vou. Já localizei o interfone e...
“Por favor a Sr. Yara”.
... continua na próxima publicação.
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Mara Bianchetti
Ciúme nunca foi um sentimento que eu tivesse apreço. Acho normal namorados terem amigos, acho normal pessoas falarem de seus passados, acho normal uma intriguinha aqui outra ali, mas ciúme ciúme eu nunca aprovei.
E hoje a vida quis me colocar uma prova. Veio com fatos e argumentos suficientes para me mostrar que há determinadas situações em que há motivo sim pra você sentir ciúme.
Já vi namorada que briga com namorado porque o pegou olhando para o lado; já vi namorado brigando com namorada por ter remexido em seu passado; já vi amiga que termina amizade por conta de intrigas da oposição; também já vi filho com ciúme do irmão. Mas nunca vi o que me peguei sentindo.
Como muitos aqui sabem, há quase um ano moro sozinha
Pois bem, hoje me peguei sendo substituída. Assim, me peguei pensando em uma possível substituição – afinal, não quero ser injusta também. Tô sentindo um nó na garganta, sabe? Uma coisa esquisita, um sentimento pesado, uma vontade de chorar muito, muito – muito além do que já chorei. Acho que o danado do ciúme me pegou.
É claro que quando meus pais mudaram de cidade muita coisa mudou, inclusive nosso contato. O nosso amor não mudou, mas novas pessoas entraram em nossas vidas. Sei que para eles também não é nada fácil estar naquela cidade, mas as vezes me pergunto porque é que a vida age assim. Assim, colocando novas pessoas em nossos caminhos e nos fazendo mudar. Mais uma daquelas perguntas que acabam sem resposta, sabe?
Desde o início que eu sabia que tinha gente nova no pedaço e já começava a temer uma proporção maior. E essa proporção aconteceu. Aconteceu e me fez sentir insegura, diminuída, sozinha – eu diria. Sozinha como eu nunca me senti. Talvez seja só um surto de saudade com um misto de ciúme. Ou um surto de ciúme com um misto de saudade. Não sei. Mas dói e eu precisava desabafar. Sabe porquê? Porque eu amo a minha mãe.
.:: Por que escrever é uma arte ::.
Mara Bianchetti

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